Por Valmir Sarmento
Estamos chegando em tempos cruciais na história da humanidade. As profecias bíblicas cada vez se cumprem com mais fidelidade e indicam que a volta de Yeshua se aproxima. Os profetas nos revelam que haverá pragas e mortandade. Muitos “ais” se ouvirão. O mundo será assolado, o sol escurecerá e as estrelas cairão dos céus.
Qual é a função da Igreja neste contexto? Será que como representantes do Reino de Deus apenas podemos ficar de braços cruzados vendo o circo pegar fogo enquanto gritamos de longe: aceitem a Jesus para serem salvos em meio à destruição? Podemos orar pela mudança do mundo? Podemos orar para que Deus restaure o ambiente degradado? Podemos orar para que diminua a violência social e as guerras? Como devemos interceder pelo mundo se Deus já o predestinou para a perdição?
Essas perguntas já ouvi de muitos cristãos sinceros e que eu mesmo por muito tempo não consegui responder.
Creio que a resposta para estas questões estão no cerne da dialética enfrentada pela Igreja em nossos dias. Por um lado ela foi chamada para trazer perdão, paz, vida e restauração a este mundo, mas por outro, ela espera que a palavra profética de juízo se cumpra fielmente em nossos dias.
Creio que se a Igreja aprender a lidar com este dilema, conseguirá agir com maior efetividade em favor da mudança do mundo. Se ela entender sua função em meio a estas duas vertentes, compreenderá que elas não são opostas. Uma complementa a outra.
É necessário começar entendendo a natureza das profecias na bíblia. A palavra profética nunca foi utilizada como instrumento de punição em si mesma. Ela era utilizada para exortação, admoestação e correção da rota, quando os homens desviavam-se do caminho. Eles eram advertidos que se não se voltassem para a Torá, seriam amaldiçoados.
Neste sentido, o Eterno mesmo coloca o homem diante de uma escolha. Se obedecer, será abençoado. Se desobedecer, será amaldiçoado. Se observarmos a história de Israel, verificaremos que quando o povo se desviava, havia assolação. Antes, porém, Deus enviava seus profetas para alertar o povo a respeito da necessidade de arrependimento de pecados.
A respeito disso o próprio Senhor diz em Amós que não fará nada sem revelar seus propósitos aos seus profetas.
Deus respeita este princípio não apenas quando se referia a Israel. Fez isso com Balaão e fez também com Nínive.
E é neste último caso que quero iniciar meu pensamento (baseando-me nos ensinamentos do rosh Matheus Zandona do Ministério Ensinando de Sião). Jonas foi enviado a Nínive como profeta. Ele levantou sua voz proclamando que Nínive seria assolada. A profecia parecia certa. Com certeza a cidade seria destruída. Um crente de nossa época que fosse para lá transportado certamente creria na profecia como um fato imutável e talvez até mudaria de cidade.
Entretanto, a natureza da Profecia bíblica é diferente. Quando a profecia se refere a fatos futuros de maldição, ela não se apresenta como um decreto absoluto. Ela não é a palavra final sobre as pessoas. Ela é uma indicação de que não está se indo bem e se não for feito algo a respeito, virá então a maldição sobre os desobedientes.
Tenho que Jonas também pensou assim. Ele começou a entregar a profecia. Pensava que Deus destruiria aquela cidade. Não havia o que se fazer. Houve, porém, algo que o surpreendeu. A cidade toda se arrependeu. Colocaram pano de saco e cinza e apregoaram um jejum. Até os animais deixaram de comer.
O resultado foi que Deus se alegrou diante do comportamento daquela cidade e suspendeu o decreto que havia estabelecido. A cidade foi salva. Não houve a mortandade prevista pelo profeta Jonas.
Hoje estamos novamente diante de um “Jonas” e sua mensagem. A voz do Apocalipse ressoa fortemente para nossos dias. Ela fascina a muitos crentes de tal maneira que parecem torcer para ver logo as taças de ira sendo derramadas sobre a Terra. Alguns aprofundam seus estudos e fazem especulações sem fim sobre o fim do mundo, incluindo a época em que acontecerá.
Não se pode ver nenhuma novidade na informática ou um novo líder carismático mundial se levantando que já se deduz ter chegado o governo do anticristo e a grande tribulação. Alguns parecem torcer para ver se levantar logo os 4 cavaleiros do apocalipse.
Porém, o sentimento dos cristãos não deveria ser assim.
Abraão teve uma outra postura ao tomar ciência do projeto divino de destruir Sodoma e Gomorra. Ele perguntou ao Senhor sobre a possibilidade de poupar as cidades se caso houvesse nelas um mínimo de 10 justos. Deus concordou com sua solicitação. Porém não havia mais que um justo morando nelas, Ló.
A Igreja deveria aprender com a sabedoria e intercessão de Abraão. A misericórdia deste homem se confundiu com a do próprio Deus. Ele buscou evitar o apocalipse daquelas almas, lançando perguntas para Deus se Ele destruiria o ímpio juntamente com o justo. Logicamente Ele jamais faria isso pois ama a justiça.
Outro exemplo é o de Moisés. Ao ouvir que Deus iria abandonar seu povo por causa do pecado e diante da proposta do Eterno de começar um novo povo escolhido apenas com ele, Moisés não aceitou e começou a interceder e argumentar com o Senhor em favor de Israel.
Noé não foi como Abraão e Moisés. Ao receber a mensagem de Deus de que haveria o Dilúvio, Noé não intercedeu junto ao Senhor para que desistisse de seu intento. Ele apenas pregou a profecia aos homens moralmente desvirtuados. Como eles não ouviram sua mensagem, ele simplesmente aceitou o decreto e continuou construindo seu barco – não pareceu se importar com a grande assolação que o mundo iria enfrentar. Alguns comentaristas da Torá dizem que Noé foi justo, mas apenas se comparado à sua própria geração. Talvez por isso ele não é citado como um dos patriarcas de Israel.
O que quero dizer com estes exemplos é que a profecia deve ter grande valor para os crentes, mas não como uma determinação definitiva. Acredito que Deus revela suas profecias para nascer no homem uma reação que quebre a indiferença e o comodismo. Portanto, a palavra profética deve gerar, por um lado, a vontade de orar e clamar a Deus pela sua misericórdia, e, por outro, deve nos inquietar a pregar ao mundo sobre a necessidade de arrependimento e mudança de comportamento.
Creio que esse é o intuito do Apocalipse e demais livros escatológicos da bíblia. Eles devem nos fazer crer que podemos fazer que o Messias volte, mas que as taças da ira não sejam derramadas sobre a Terra, pelo contrário, que ele encontre uma Igreja forte, sem mancha e sem mácula, que influencia a humanidade no caminho da justiça, da paz, do perdão e da graça.
Se os justos levantarem sua voz profética, conclamando os povos ao arrependimento, se influenciarmos a sociedade a ponto de restaurar os padrões morais que foram destruídos, então outros justos se levantarão. Quanto mais justos sobre a Terra, maior a possibilidade de que Deus tenha misericórdia de sua criação e mude seus planos, como faria com Sodoma e Gomorra.
Portanto, devemos clamar e pregar. Essa é a necessidade urgente colocada perante a Igreja. Orando para que o Messias volte logo, mas que não haja assolação sobre os povos da Terra, mas que venha para reinar sobre eles, trazendo seu reino de Shalom.
Amém.