Por Valmir Sarmento
A igreja evangélica brasileira está passando por uma grande crise de valores e de própria identidade. Alguns dizem que ela está passando por um processo de constantinização, no qual, repetindo a história de Constantino, arreganha suas portas para um crescimento numérico e, ao mesmo tempo, muda seus limites de tolerância moral.
Não é à toa que a igreja evangélica está perto de alcançar a maioria da população brasileira. Este inchaço numérico tem uma receita: a adoção de práticas e costumes da crendice popular brasileira.
É comum a utilização nos cultos de elementos místicos utilizados em outras religiões, como sal grosso, amuletos e copos com água. Também se tornou prática a adoção das festas católicas, que por muito tempo o protestantismo atacou ferrenhamente. Apenas mudou-se o nome de festa de São João para festa caipira, junina, da fogueira, entre outras denominações. Entretanto, sua caracterização é a mesma, com as mesmas comidas e vestimentas.
Adotou-se também na igreja uma hierarquia que não existia. Primeiro se torna obreiro, depois diácono, presbítero, pastor, bispo e, então, apóstolo. Hierarquia que nos lembra à da igreja romana à qual a igreja evangélica tanto criticou. O apóstolo se tornou como um papa, aliás, está na mesma fonte de significado: “paipóstolo”. Nele muitos idólatras evangélicos acreditam encontrar o maior grau de unção possível. Por isso multidões o rodeiam buscando oração.
Paralelamente, a música cristã se tornou extremamente antropocêntrica. Canta-se muito sobre tomar posse da herança do que é meu, restituição e avivamento, enquanto Deus foi deslocado para terceiro plano.
Além disso, o mercado gospel se tornou uma grande indústria. Gravadoras e artistas enxergam o “ministério” como uma fonte de lucros e riquezas. É comum que cantores cobrem de 1 a 10 mil reais para se apresentarem pelas igrejas para que possam andar em seus carros importados, rodeados por seguranças.
Enquanto a igreja evangélica brasileira apresenta um crescimento sem precedentes, a situação do país não mudou. A miséria continua imperando nas periferias. O crime organizado continua se fortalecendo. Enfim, a injustiça social continua reinando em nossa sociedade.
É por essas razões que tem crescido também a intolerância de muitos irmãos diante da situação da igreja evangélica nacional. Precisamos pegar um outro rumo. Se continuarmos assim, seremos a igreja Laodicéia de nosso século (se já não formos), morna e vomitada da boca do Senhor.
É necessário deixar as ambições ministeriais e eclesiásticas de lado para voltar à simplicidade da Palavra, à humildade, ousadia e intrepidez dos irmãos do primeiro século.
Que o Eterno nos ajude a voltar às nossas raízes e aos princípios que faziam com que a igreja do primeiro século fosse fonte de real transformação da sociedade e do mundo no qual vivia.